terça-feira, 2 de novembro de 2010

A noite e sua nudez
a voz da menina em admiração aberta,
alternância de sátira ou silêncio entristecido
hoje sou testemunha da noite e sua nudez,
hoje assisto ao testemunho da menina e seu amor calado
há entre nós a pouca distância de quem sabe para sempre
e o muito que nos separa
é o mudo do meu presente.
a menina, olhos de menina,
a aceitação e a dor desta menina,
grandes na nudez da noite,
no passageiro da criação,
nos sonhos sonhados, suspeitados,
a voz e o silêncio sobre o que sempre soubemos,
entre a paixão da menina
e o desejo da paixão que me anima,
ainda ausente como estou,
menina que perdi,
além do primeiro das coisa.

Ana Cristina Cezar – Da pasta rosa (06/11/70)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mil seiscentos e noventa e nove. Olhando para esse número em negrito, invade a mim, um sopro, desses qualquer. Exatos mil seiscentos e noventa e nove. Nada a mais. Para quem tem essa mania besta de colecionar escritos, apagá-los é, sim, um crime inafiançável. Vale dizer que são exatos quatro mil cento e oitenta e cinco, desde 25 de abril de 2006 [um começo que escolhi por sua qualidade delicada de ser o mais fofinho (refresco-me as vistas e a memória - "Sua alteza mandou me chamar? o que queres?... Ah senhor, nd feito. Tenho tido muita dificuldade para terminar esta encomendA. Como é difícil afinar toques musicais na mesma frequência das maravilhas da vida! (...) Mas já tenho um protótipo para a alteza: experimente amar sem tocar, gostar sem dizer, criar sem pensar, mover sem mexer... é talvez por metáforas q posso aprender e relatar o que sua alteza, meu Deus, quer dizer a nós, seres vivos"]. Suspiro, em pensamento: me dei conta, antes mesmo de vê-lo. Atropelo o momento com algo matemático que berra em minha mente: Ontem ainda eram menos! Eram... mil seiscentos e oitenta e poucos. São, pelas minhas contas aproximadas uns... doze; só hoje! Mas, agora, às dez e onze, está lá... estático, um grande iceberg numérico e negritado. Todos aqueles que não tem lá grande importância. Todos menos um. Às dez e vinte e dois, batem a minha porta repulsas (de mim, do mundo e daquele médico filhadaputa que estragou meu dia). Pressinto, com um olhar desesperado, meu toque: F5. Céus! Lá estão todos, menos um...

Meia-noite, eu serei, efetivamente, a mulher mais infeliz do mundo.

domingo, 4 de julho de 2010

Aos queridos The Bull, My Carol, Max, Douglas, Alexander, Judith, Ira, KW e ao meu pequeno (grande) príncipe.

A espera de algo qualquer pode ser mais decepcionante do que o próprio algo qualquer, de fato. Retomando as raízes passadas e percebendo as rosas que, falantes, altivas e sem proteção, nem sempre, podiam oferecer tudo aquilo que pediam. Zás! Criou-se um precipício: a realidade que se tateia sem poder sonhar; noites sofismantes que, de madrugada, somem sem memória.

Precipício à frente, realidade crua; mesmo sem poder se movimentar, passos foram dados. A cada passo, um novo engano que foi facilmente adorado, dito e promovido como uma nova maneira de deixar-se inundar do “algo qualquer novo”. Claro, novo... Novo engano. O abismo, a queda, o fundo de cada um encarado face-a-face, pela milionésima vez, novamente, e nunca o mesmo, nunca o mesmo... Nunca.

(Mais) uma vez dentro, adoráveis e singulares monstros infantis: a carência, a agressividade, a amabilidade, a criatividade, a contemplação, a melancolia, a solicitude, o companheirismo e outros dois, mais facilmente presos a minha face tão transparente a estranhos: o egocentrismo e a impetuosidade. Facetas de um mundo inteiro, por dentro... a espera de algo que não se pode oferecer, mas que, ainda assim, se espera. No fundo não há mais espaços para os passos de fuga, parou-se os enganos não por vontade, mas por não serem mais possíveis – falta espaço para o movimento. Zás! Um último suspiro, a súbita falta cortante e o retorno a superfície: uma epifania.

Volta-se ao mundo e ao que ainda ficou aberto, em chagas, queimando em cada badalar dos dos sinos de catedrais que soam em melancólica e ínfima alegria, na esperança que ainda seja possível tentar balbuciar, por amor, o que não pode ser dito... A tristeza que une dois em um tal qual o amor envergonhado por esse estar inconstante no mundo, que, sem saber, sem sequer imaginar, proporciona esse subir desesperado rumo ao sol, enquanto as outras pessoas apenas passam por nós.

P.S.: Adoravelmente melancólica, eu estarei sempre no nosso reino.
P.S.II: Adivinha?