quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Ao Senhor U., remanescente e saudoso soldado,


Venho primeiramente saudar-lhe pela audácia de escrever-me. Poucos sabem do que não sou. Outros menos sabem do que me tornei. Você encerra tais delimitações. Pretendia esmiuçar a situação, visto que desses lados do muro vê-se coisas diferentes do que as minhas. Resolvo, de súbito, que não. Deixarei-lhe com lamúrias de uma senhora. Quarenta e três anos - vulgos três, passados dentre armar-me e negar-me. Lamento, não somente por pactos quebrados, fixei-me no conhecer para alcançar além das camadas aéreas. Lancei-me ao espaço, não diferente de como faço hoje metaforicamente. Lancei-me. A causa era nobre, fortificar-nos; ó, Senhor , por vezes esqueci de fortalecer-me por mim. Fortalecia-me a luta, progresso da comunicação. Pressentia e comprovava o improvável perfeito, que seria provável com tal corrida contra - quem sabe? - o tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo, tentei sim, coexistir pacificamente. Mas, ideologicamente segui a lutar e as crises inevitáveis também a coexistir. Confesso-lhe que pensei amenizar-me, vã ilusão. Voltei-me esquiva, dentre aspas, novamente ao provável – desta vez, suprimido o prefixo. E, não menos provável: armas aos inimigos. Articula-se obscuramente a troco de cessar-me. Destas, impulsionaram reformas cheirando a mofo e que de certo nasciam de labirintos com grandes prateleiras. Sim, meu saudoso soldado, não podias ver-me, assim como a mim mesmo tal era negado. Sob domínios dúbios tentei aproximar-me de mim diplomaticamente, princípio de meu fim. Perto do fim, puderam, então, escolher pela primeira vez. Meio do fim, puderam presenciar quedas do que faziam você ver coisas diferentes das minhas. Caíram peça por peça. Uma a uma, de cores, decoradas, arrancadas. Uma a uma. Não nego-lhe, abriu-se espaço para verem o caos. E o caos antes instalado seria arrancado -um a um, independente do tempo. E lhe afirmo, mesmo que em processo, hoje isto será improvável. Extremamente improvável que se desfaça de tudo. Sigo, desde então, com uma lucidez perigosa, como as de quem antevê renuncias próprias em detrinimento ao desconhecido. Novamente, arrancam-me de mim, do mundo, do caos. E mastigam-me politicamente, paradoxalmente independências – neste caso, deixaria em questionamento a propriedade do prefixo, use-o como bem entender. “(Pré-)fixos”. Use-os um a um, arrancado-os - ou não... - sem expor-me e, surpreendentemente, sem que haja necessidade real de questionar alguma validade ou veracidade de tal relato que lhe escrevo aqui, pois o que lhe escrevo veio apenas de mim. De toda docilidade noturna e sua não luminosidade; e estando presa deste asilo, não sinto-me louca apenas ao sol. Fique comigo através do que fui um dia, saudoso soldado remanescente. Hoje, passados 31 dias do presente mês e lamentavelmente véspera de completude do mês destes 43 anos passados, renuncio-me. Renuncio-lhe, sonho, trancafiando-me ao sol. Enfim, meu amigo, desejo não incomodar-lhe; e caso receai e recusai esta confissão, pediria-lhe que meditasse primeiro, pois esta é a única que posso deixar-lhe.

Pois bem: Sou-me, inglório fim.

Beatriz.

Kiev, 31 de dezembro de 1991.

Um comentário:

Elis disse...

"Poucos sabem do que não sou. Outros menos sabem do que me tornei. Você encerra tais delimitações."
Brilhante ... lindo, lindo.
Abraço.
Elis.