sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Insônia III

Quando tudo é breu, e o corpo cansado permanece esticado em prantos, na cama, tens à mão Crysalidas de Machado de Assis para fazer-te companhia. O que salva o corpo dos devaneios dos olhares e pensamentos perdidos é a certeza de que, após os mil anos desta noite, a manhã virá, mesmo que "nihil sub sole novum".

Stella
(Machado de Assis)

Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.

Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora

À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.

Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.

Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera.
Em lágrimas a pares.

Do amor silencioso.
Místico, doce, puro,
Dos sonhos do futuro,
Da paz, do etéreo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.

A virgem da manhã
Já todo o céu domina . . .
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.

Céus, por quê?

Um comentário:

Helena disse...

Até chorei quando li... a imagem e a pergunta final... Putz!
Se eu for buscar a resposta vc dorme? Dorme florzinha, dorme...
Ih! Não sou muito sortuda com buscas... Que fazer?
Queria tanto poder ajudá-la... talvez assim eu me ajudaria.


"Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência."

Pablo Neruda (Últimos Poemas)



Vão pescar, vão?