terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Ter insônia é mesmo fogo. Tenho sono, resolvo deitar e lá vem uma inundação de pensamentos me deixar (bem) acordada. Escrever é mesmo uma terapia e eu preciso de ajuda para dormir. Tenho escrito cartas para ver se me canso e o sono aparece, mas como algumas cartas nunca serão lidas, fazer isso não tem ajudado muito... e misteriosamente cai a chuva!

Chuva? Chuva! Chuva... lá de madrugada?

As chuvas de interrogações começaram no momento em que a menina que pensava mil vezes antes de tomar alguma atitude, resolveu se permitir. Envolver-se é uma questão de se permitir. Essa explicação até aqui dada, pode soar como o óbvio, mas não. Para mim, não. Surgindo o primeiro questionamento de se permitir ou não, aparece a fase de euforia do meu transtorno bipolar me fazendo pensar que permitir é sempre bom. “Ah, porque não?”
Ah, por que não, mocinha?! Porque você sabe que as coisas são mais intensas quando analisadas no domínio da sua vida. Permitir-se seria dar uma brecha pequenininha para o caminho sem volta que me rende horas em claras e pensativas de dia e de noite. E a brecha minúscula foi dada. Observar a tempestade pela janela dentro de sua casa é mais seguro do que deixar a janela semi-aberta. Deixar a janela aberta seria mergulhar no desconhecido. Esquecer por um instante a brechinha aberta foi o suficiente para molhar tudo no lado de dentro da casa. O vento ainda teima em abrir ainda mais a janela e sinceramente, não sei se quero fechar. Eu posso perder muito com isso, mas que seja... Eu queria mesmo era falar abertamente com a chuva que ela está molhando tudo aqui dentro. Inútil fazer isso, ela não me responderia mesmo.
Transtorno bipolar de humor. De louco todo mundo tem um pouco, e eu tenho essa desculpa para justificar certas coisas...

Transtorno? Transtorno! Loucura...

Nessa chuva que teima em cair silenciosamente (porque eu me permiti), o que me falta é a sutileza da vida... e a coragem. Neste ano que acabou de ir embora, não houve nem um momento parecido com esse, por isso as noites às claras. Não arrependo de ter esquecido a janela aberta, mas foi um instante só. Um momento só. Só um. Umzinho, inho mesmo. E cá estou sem dormir. Talvez seja medo, com essa vida maltrapilha que tenho levado, não me surpreenderia se fosse isso mesmo. Talvez seja algo mais profundo, algo que por muito tempo não conheci e agora quero de novo. Eu quero molhar, mas não adianta, a chuva não me escuta... E chuva não fala, mocinha... Não vai adiantar nada gritar para ela.

Pelo menos ainda tenho esperança de que algum dia eu vou dormir em paz de tanto cansaço.
Por esses dias em Belô a chuva está querendo abrir um belo sol, nem que ele seja o meu solitário sol. Eu fico mais animadinha quando não está chovendo, dá para sair para ver meu jardim verde, meu sol fraco que só ele, e eu borboleta. E ainda me disseram que as borboletas no meu estômago são extremamente educadas e elegantes ao voar. Tem horas que é melhor deixá-las voar além do permitido, para ver se esse silêncio é quebrado.

Borboletas? Borboletas! Borboletas! Mais borboletas... fiquem quietinhas.

Um comentário:

Helena disse...

Mesmo voando além do permitido, as borboletas em questão voariam elegantemente! É da natureza poética delas...

Tenho insônia desde os 15 anos...

Insônia (Líria Porto)

A boca escancarada da noite
os urros do silêncio
as teclas mudas

não tilintam os cristais
não estilhaçam a vidraça
os amantes não sussurram
não há sinos de igreja
o mundo acabou
o relógio dorme
o tempo não passa

onde estão os latidos
os galos os gritos
os olhos do sol?

na cama imensa
o corpo exausto
o vazio da tua ausência
e os mil anos dessa noite
que me engole
que me vomita