segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Conto do velório

Domingo. Não se sabe os porquês de existir o dia de domingo. O mundo pára. A rua pára. A casa pára. E ela também quis parar. Consciente do que estava por vir, se vestiu, se maquiou e caminhou até o orquidário. Os olhos assustados dos demais moradores da casa a perseguiam, mas ela firme seguia em busca da flor. Pegando-a, voltou ao seu quarto. Trancando-se no seu mundo, ela retirou os lençóis da cama, retirou o colchão. Defuntos não precisam de conforto, ela pensava. A cama em madeira pura agora estava pronta para recebê-la. Ela ascendeu duas velas, uma em cada ponta da cama e deitou-se. Cruzou as pernas, juntaram-se as mãos ao mesmo tempo em que seguravam a orquídea laranja. Assim ela permaneceu, sem esquecer do sorriso póstumo de paz.
Passaram alguns minutos e subiram os irmãos para convidá-la para o almoço. Seus olhos estavam serrados, mas ela podia ver; eles estavam pasmos com a cena. Chegaram a aproximar dela e chegar a pulsação. Estava tudo em paz... Eles não entendiam. Ouviram-se passos rápidos e a chegada dos pais. A mãe, coitada da mãe, desabou acreditando realmente que aquilo se tratava de um velório. Ver um filho morrer, não é para qualquer um e essa mãe mais louca do que a moça pela primeira vez não entendeu o cunho da história e repetia insistentemente para que ela se levantasse dali. O pai, com o humor mais parecido com o da moça, foi logo soltando uma gargalhada. Ria, sabe-se lá se pela situação toda ou pela sensação de que, ela estava fazendo algo que ele sempre quis fazer, mas ser “o pai de família” não permitia. O pai ria, a mãe chorava e os irmãos estáticos. A mãe então resolve sentar ao lado da menina e conversar. Perguntava a pobre o porque de estar ali, parecendo uma defunta. A mãe não entendia. A garota era uma defunta e resolveu se velar, para tentar conseguir pelo menos alguns minutos de paz e seria inútil sair daquela situação de paz (inventada, mas de paz) e responder as questões da velha senhora. O pai sensato (ou mais louco do que a garota) pegou a mãe pelos braços e tentou explicar, com recursos lingüísticos escassos pelo susto, o que aquilo significava. Ele conseguia dizer somente que ela precisava ficar ali. E ela realmente precisava ficar ali.
Então, os atrevidos penetras de velório resolveram descer e almoçar como uma família normal faz dia de domingo. Depois de passar a tarde toda sem pensar em nada, só ouvindo vez ou outra, uma voz lá dentro dizendo que ela precisava agora inventar seu renascimento; ela resolveu se levantar... E sem saber os porquês dos domingos, ao menos ela sabe o que fazer para escapar da angústia de ter que vivê-los. E renascida, levantou-se e foi cantarolar pela casa “Quem vai pagar o enterro e as flores se eu me morrer de amores?”.

3 comentários:

guiviolino disse...

maravilhoso!bastante original.escreves bem viu!parabens!

Cristiano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristiano disse...

Sem movimento.. Parece não haver tempo, nem espaço... Parece não haver vida!! Ah.. Meu Vinícius de Moraes / Não consigo te esquecer / Quanto mais o tempo passa / Mais me lembro de vc - Tom.. Muito bom!! cristianorodriguez@gmail.com